Após realizar Suspiria (1977), o italiano Dario Argento fora exaltado como gênio do cinema de horror. Exagero do rótulo ou não, sabe-se que o diretor criou com esta película um universo onírico bastante peculiar, comparável somente aos delírios filmados por nosso José Mojica Marins.
A história de uma garota que viaja à Friburgo com o objetivo de estudar balé em uma tradicional academia e que posteriormente descobre estar em um covil de feiticeiras, na verdade, nada mais é do que um pretexto para Argento compor um pesadelo em forma de som e imagem. O uso excessivo de cores saturadas na iluminação e na cenografia - recurso utilizado anos antes por Mojica em filmes como Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver e Ritual dos Sádicos; a bizarra trilha sonora elaborada pelo conjunto carcamano de rock progressivo Goblin, repleta de sussuros, distorções; as delirantes e brutais cenas de assassinato; tudo isso faz parte dos elementos que Argento utiliza no filme para exercitar seu horror autoral.
O diretor deu continuidade a esse universo surreal três anos depois em Mansão do Inferno (Inferno, no original), sequência direta de Suspiria e segundo exemplar da "Trilogia das Mães". Explico: os roteiros de ambos os filmes - e da terceira película, Mãe das Lágrimas, lançada em 2008 - focam na existência de três bruxas de grande poder que assolariam o mundo desde tempos imemoriais. O trio maligno seria composto pela Mãe dos Suspiros (Madre Suspiriorum, vista em Suspiria), Mãe das Lágrimas (Madre Lacrimarum) e Mãe das Trevas (Madre Tenebrarum, principal antagonista deste Mansão do Inferno).
Escrita pelo próprio diretor, a trama da película, da mesma forma que a de Suspiria, consiste em um tênue fio narrativo cujo único intuito é o de proporcionar a Argento oportunidades para que este possa realizar estilizadas cenas de morte e terror atmosférico. Na história, a escritora Rose Elliot (a bela, porém inexpressiva Irene Miracle, que participou do thriller italiano Night Train Murders e de Bonecos da Morte, primeiro filme da série Puppetmaster), após ler um livro no qual um alquimista de nome Varelli afirma ter construído a morada das três bruxas, começa a desconfiar que o edifício onde mora, em Nova York, é o lar da mais terrível das feiticeiras: a Mãe das Trevas.
Temendo por sua vida, Rose manda uma carta com um pedido de ajuda para seu irmão Mark (Leigh Mac Closkey, figurinha tarimbada de seriados de ficção científica, como Babylon 5 e Star Trek: Deep Space Nine), que estuda Musicologia em Roma. No entanto, até que Mark receba a carta, uma série de acontecimentos estranhos tomará lugar na vida deste, de sua irmã e das pessoas que os rodeiam.
Conforme dito anteriormente, o roteiro de Mansão do Inferno é inconsistente e repleto de situações que priorizam a estética da imagem. A partir de um determinado ponto, o filme se configura em uma viagem alucinatória, um verdadeiro "samba do crioulo doido" onde nada é o que parece ser. Não chega a ser um delírio completo como os roteiros de The Beyond e Pavor na Cidade dos Zumbis (ambos do cineasta italiano Lucio Fulci), mas ainda assim destrói todas as suspeitas que o espectador criou acerca das personagens ao longo da exibição do filme.
Uma prova incontestável disso é a sequência (muito bela quanto aos enquadramentos e à iluminação) na qual uma das personagens é degolada sob a parca luz de um eclipse lunar enquanto ratos devoram seu corpo. Não bastasse o surrealismo da cena, quem comete o assassinato é um figurante que nada tem a ver com a trama.
A inverossimilhança das situações e das decisões das personagens na história também diminuem a solidez do roteiro. Uma combinação de incoerências pode ser vista logo no início da película, na cena em que Rose desce no porão do prédio e mergulha em uma espécie de "buraco-piscina" atrás das chaves que caíram de seu cinto. Ora, quem em sã consciência mergulharia sozinha em um fosso escuro, localizado em um porão que supostamente esconde o segredo de uma bruxa demoníaca? E a existência de uma câmara subterrânea no tal buraco inundado? Soa real? Mas isso é o cinema de Dario Argento! Cinema da fantasia, cuja intenção não é outra senão proporcionar ao espectador impactantes experiências sensoriais. Logo, ao longo de toda a película, somos brindados com sequências belíssimas, que surpreendem pela plasticidade, jogo de luz (predomínio das cores azul marinho e vermelho na iluminação), relação com a estética barroca e inventividade quanto aos ângulos. As tomadas que retratam as personagens e os ambientes nos quais eles estão inseridos são de encher os olhos. Destaque para as várias cenas em que Sara (Eleonora Giorgi) perambula por uma biblioteca antiga – segmentos que ressaltam o barroquismo da cenografia -, o já citado mergulho de Rose e os vários momentos em que a lua é enquadrada pela câmera.
Embora as cenas de morte sejam menos gráficas que as de Suspiria e Prelúdio para Matar (Profondo Rosso, outra obra-prima do diretor, lançada em 1975), estas ainda são consideradas bastante violentas, o que agradará o fã mais afoito por gore. Os efeitos de tais sequências, assim como a maquiagem, seguem a estilização típica do cinema argentiano. Ou seja: nada de realismo gráfico. A cor do sangue falso, por exemplo, é berrante, carregada como a tinta utilizada em uma pintura expressionista.
Se comparado ao seu antecessor, Mansão do Inferno tem dois grandes pontos fortes: o dinamismo e o suspense. O ritmo narrativo do filme é como o de uma montanha-russa, na qual a tensão intercala com momentos impactantes - diferentemente de Suspiria, que se tornava arrastado em algumas partes. No tocante ao suspense, este se mostra presente durante toda a história. No entanto, cenas como a do apagão no apartamento de Sara (ritmada pela peça Va Pensiero..., de Verdi) e o encontro final de Mark com o misterioso Professor Arnold (interpretado pelo veterano Feodor Chaliapin Jr, que atuou em A Catedral, de Michelle Soavi) são de roer as unhas, superando qualquer coisa vista no filme anterior de Argento.
O elenco, no geral, é bastante irregular. A interpretação dos protagonistas ora beira a apatia, ora o caricato - fato que não chega a ser um problema em um filme do diretor, onde a expressividade dos planos e enquadramentos fala por si só. Leigh Mac Closkey até se esforça para dar realidade a seu personagem, mas acaba por cair na canastrice. Os destaques vão para Daria Nicolodi (namorada do diretor por muitos anos e atriz de praticamente todos os seus filmes) no papel da condessa Elise Van Adler, Feodor Chaliapin Jr como o professor Arnold e Sacha Pitoëff, que interpreta o vendedor de antiguidades Kazanian. O jeito ríspido desse último, inclusive, remete o saudoso Bela Lugosi, ícone do cinema de horror.
Por fim, cabe salientar o fantástico trabalho de Keith Emerson (da antológica banda britânica de rock progressivo Emerson, Lake & Palmer) no desenvolvimento da trilha sonora de Mansão do Inferno. Os ecos de gritos e os sons distorcidos de Suspiria foram substituídos por temas barrocos de piano e órgão que carregam uma aura de mistério crescente. A canção Mater Tenebrarum é um show à parte, uma vez que, com o uso de corais e órgãos bachianos, converte a película em uma verdadeira ópera infernal.
Além de ser um ótimo filme de horror, repleto de momentos tétricos e violência chocante, Mansão do Inferno é um exemplar legítimo do delirante cinema autoral de Dario Argento, pois traz consigo todas as virtudes e deficiências do trabalho desse diretor. É altamente recomendável aos que veem o gênero como algo puramente comercial, incapaz de possuir valor artístico. Porém, não é aconselhável aos que estão acostumados com roteiros redondos ou com montagens rápidas estilo "videoclipe" - marca que parece predominar no cinema atual. Em uma analogia óbvia, Mansão do Inferno é como um vinho raro, que deve ser apreciado, degustado em seus mínimos detalhes. De preferência, com a mente aberta.
Prof. Pardal
Mansão do Inferno (Inferno) Itália, 1980 Gênero: Horror Direção: Dario Argento Roteiro: Dario Argento Com: Leigh McCloskey, Irene Miracle, Eleonora Giorgi, Daria Nicolodi, Sacha Pitoëff, Veronica Lazar, Gabriele Lavia, Feodor Chaliapin Jr.



