Nota do colunista: esse artigo foi elaborado em 2010 para a disciplina JornalismoCinema. Achei interessante postá-lo neste espaço, visto que, no Carreirascast sobre jornalismo, comentamos sobre a forma romanesca com que o cinema representa a profissão. Em alguns momentos, o filme discutido corrobora com essa visão. No entanto, também retrata o jornalista de maneira bastante negativa. Tirem suas próprias conclusões.
Uma vez que o cinema de horror da última década foi marcado por uma enxurrada de produções descartáveis e remakes convencionais (a maioria de filmes menores, prova cabal de que as ideias parecem ter se esgotado em Hollywood) realizados pelos estúdios norte-americanos, não é exagero dizer que [REC] consiste em um dos melhores filmes de horror dos últimos anos. Lançada em 2007, essa película espanhola aterrorizou plateias inteiras ao polimerizar o subgênero “filmes de zumbi” com o estilo documental de filmagem de obras como Cannibal Holocaust (1980) e A bruxa de Blair (1999).
Na trama, a repórter Ángela Vidal (a gatinha Manuela Velasco) e o cinegrafista Pablo (interpretado por… Pablo Rosso!) acompanham a rotina de um corpo de bombeiros da cidade de Barcelona para o “Enquanto você dorme”, programa televisivo, misto de jornalismo e entretenimento, sobre profissionais que operam na madrugada. Durante a gravação do programa, o alarme do quartel anuncia um chamado aparentemente rotineiro: moradores de um prédio estariam aterrorizados com os gritos de uma vizinha. Ao chegar ao local, porém, bombeiros e jornalistas acabam sitiados no edifício devido à suspeita de uma epidemia capaz de transformar os infectados em criaturas sedentas por carne humana.
Bonitinha mas ordinária.
A despeito de sua simplicidade, o roteiro do filme permite não apenas a criação de sequências arrepiantes – todas registradas de maneira crua pela câmera de Pablo –, mas também uma leitura bastante crítica e, em alguns momentos, ambígua sobre a profissão jornalista, cerne da discussão desse artigo.
Assim como Cannibal Holocaust, [REC] retrata os profissionais de mídia como sujeitos antiéticos que priorizam o impacto que suas imagens podem provocar na audiência (e o lucro que isso pode gerar). No entanto, o filme dirigido por Jaume Balagueró e Paco Plaza tem uma abordagem muito mais sutil do que a ultrajante película italiana: enquanto as personagens dessa última chegavam até mesmo a assassinar índios para garantir “emoção” ao documentário que estavam produzindo, Ángela e Pablo limitam-se a explorar de maneira sensacionalista as situações que se desenrolam no prédio.
Impressão minha, ou alguém saiu ai de dentro.
São inúmeros os segmentos que sustentam esse argumento: a caótica sequência em que Pablo filma com detalhes um policial sendo dilacerado por uma senhora infectada; a cena em que o cameraman invade um recinto onde dois feridos estão recebendo tratamento médico (o protagonista enfoca ferimentos abertos com zooms); e o momento em que Ángela usa do sensacionalismo para entrevistar uma garotinha.
Além disso, os jornalistas de [REC] tem ecos de Charles Tatum, o inescrupuloso repórter interpretado por Kirk Douglas em A Montanha dos Sete Abutres (1951). De maneira semelhante à personagem de Douglas – que optou por manter um homem preso nos escombros de uma mina com o intuito de gerar notícias a partir disso –, Ángela e Pablo raramente oferecem ajuda aos moradores do edifício, preferindo registrar e comentar os acontecimentos. Essa pintura da profissão evoca uma antiga e insolúvel questão: até que ponto o jornalista deve se limitar a registrar os fatos sem interferir nestes?
Não chora, ainda vai morrer muita gente. Inclusive você!
O jornalismo também é retratado como um ofício que atrapalha o desempenho de outras profissões. Em vários momentos da trama, a presença da câmera e a histeria da repórter Ángela irritam bombeiros e policiais, de modo que estes acabam não conseguindo controlar as situações críticas que se sucedem.
Contudo, o roteiro de [REC] não se restringe a demonizar seus jornalistas, oferecendo um contraponto que faz o espectador pensar. As ações incisivas dos protagonistas são justificadas por estes em diálogos como “única forma de provar que tudo realmente aconteceu”. Se analisado sobre essa ótica, pode-se dizer que o filme, apesar de criticar duramente a invasão emocional e o voyeurismo decorrente do jornalismo, pinta a profissão como a portadora do ethos da verdade e da denúncia. Afinal, se no epílogo as personagens ilhadas no edifício sobreviverem, a reportagem de Ángela e Pablo será não apenas uma prova concreta do ocorrido, como também um elemento para denunciar o abuso de autoridade da parte do governo – responsável pelo isolamento biológico do prédio.
Prof. Pardal
[REC] Espanha, 2007 Direção: Jaume Balagueró e Paco Plaza Roteiro: Jaume Balagueró, Paco Plaza e Luiso Berdejo Com: Manuela Velasco, Pablo Rosso, Ferran Terranza, David Vert e Carlos Vicente



