Filmes ruins de zumbi que merecem ser vistos – Parte 1 de 3








Nota do colunista: para a surpresa de todos, eu não vou publicar uma resenha de Super 8. O motivo é bem simples: eu ainda não assisti ao filme! Além disso, por conta do TCC, estou sem tempo para fazer análises minuciosas. Peço desculpas aos meus poucos leitores. Prometo que os reviews e os artigos extensos que vocês adoram (essa é boa!) voltarão em setembro. Por enquanto, fiquem com algumas dicas rápidas de filmes para ver no tempo livre - ênfase no “livre”, visto que as obras selecionadas para esse artigo são podreiras do mais baixo escalão!


Ao longo da história do cinema de horror, os zumbis passaram de monstros coadjuvantes a vilões de obras clássicas do gênero. Outrora escravos mambembes sob o comando de feiticeiros vodu nos ingênuos anos 30, tornaram-se, nas décadas de 60 e 70 (auge da contracultura), sinônimo de apocalipse e alegorias políticas nas películas de George Romero. Outros diretores, como Jorge Grau, Jean Rollin, Lucio Fulci, Dan O’ Bannon, Lamberto Bava e Michelle Soavi, também modificaram o mito original do zumbi em prol da plasticidade dos efeitos e de atmosferas tétricas, criando filmes bastante distintos entre si – mas todos originais e importantes para popularização desse monstro que os fãs de horror tanto adoram. 

Todavia, uma gama de títulos ruins (a maioria made in Italy, uma vez que os carcamanos queriam lucrar a partir do sucesso de Despertar dos Mortos e Zombie) surgiu quando esse subgênero caiu nas graças do público nos anos 80. São produções que transparecem pobreza a cada fotograma, bem como a falta de talento de todos os envolvidos - do diretor ao continuísta. O termo trash, tão caro pelos críticos desinformados para classificar obras de horror, é perfeitamente cabível para definir estes filmes. 

A despeito de exalarem precariedade, algumas dessas obras podem ser vistas como divertidíssimas comédias involuntárias se não forem levadas a sério (e não devem ser! Em absoluto). Isso porque os roteiros destas colecionam clichês deliciosos e situações que beiram o absurdo! Outras, apesar da ruindade, possuem ideias interessantes e que certamente funcionariam caso o orçamento fosse maior. 

Sendo assim, preparei uma breve lista de filmes de zumbi que, embora toscos até a medula, merecem uma conferida, seja pela inventividade ou pela total falta de competência dos realizadores. Comprem cervejas e petiscos, chamem os amigos e mijem nas calças de tanto rir com essas barbaridades em forma de celulóide!



A noite dos mortos-vivos (Nights of Terror – a.k.a Burial Ground) 
Itália, 1981 - Direção: Andrea Bianchi



Lançado em VHS no Brasil com o mesmo nome do clássico de George Romero (certamente uma jogada da distribuidora para lucrar em cima dos desavisados), o filme é uma coleção de equívocos: diálogos ridículos e preguiçosos, atores expressivos como caixas de papelão, edição que intercala cenas de suspense com sexo softcore de mau gosto, maquiagem porca – o que é uma surpresa, visto que um dos responsáveis pela composição dos zumbis e das cenas de morte é Gianetto de Rossi, habitual colaborador de Lucio Fulci – e toda a sorte de situações absurdas. Não bastasse isso, copia descaradamente cenas do clássico Zombie (1979). 

Por que diabos vale a pena ver esta tralha? 

De todos os filmes desta lista, Nights of Terror talvez seja o que apresenta a maior quantidade de sequências inverossímeis e hilárias. As piores são as que envolvem um menino de 12 anos (interpretado pelo “anão” Pietro Barcella, que tinha 25 anos na época!) e sua mãe (Mariangela Giordano). Em um segmento do filme, o rapaz tenta acariciar os seios de sua progenitora e, por conta disso, toma umas bofetadas. Se a ideia do diretor era chocar com o tema do incesto, o tiro saiu pela culatra: a cena é de chorar de rir! 

Mas o pior acontece quando a personagem de Barcella se transforma em um zumbi: o “jovem” estraçalha o seio da mãe a dentadas! Este, sem dúvida, é o melhor momento da obra de Andrea Biachi; o motivo pelo qual ela merece ser descoberta.



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Oasis of the zombies (L’abîme des morts vivants)* 
França, 1981 - Direção: Jess Franco



Esse filme tem tudo o que um fã se horror bagaçaceira espera de um trabalho de Jess Franco: supercloses exagerados a cada 5 segundos de projeção, sequências inteiras ripadas de outros filmes e um roteiro arrastado que não chega a lugar nenhum. A caracterização dos mortos consegue ser pior que a vista em Nights of Terror: não bastassem os zumbis que andam com uma espécie de “cimento” na cara, ainda tem os cadáveres podrões que possuem olhos intactos – o que mostra que o responsável pela maquiagem não tinha a menor noção de como representar um cadáver em decomposição. E os zoom-in do cineasta só ajudam a ressaltar tais defeitos.

Para piorar, as pouquíssimas cenas de violência “on screen” dessa bomba são tímidas se comparadas às de outras obras do período (lembrando que o filme é posterior aos viscerais Despertar dos mortos, Zombie e Pavor na cidade dos zumbis). O pouco sangue que é mostrado na tela não empolga nem mesmo os afoitos por gore. 

Por que diabos vale a pena ver esta tralha? 

Estranhamente, Oasis of the zombies prende a atenção do começo ao fim. A única explicação lógica para isso é que Jess Franco inseriu um padrão hipnótico no filme, pois nem a trama arrastada sobre zumbis nazistas e os problemas já citados são suficientes para fazer o espectador desligar a televisão! 

Brincadeiras à parte, a obra possui um inexplicável glamour. Talvez o charme esteja nas paisagens áridas registradas habilmente pela câmera de Franco (isso quando ele não estraga os enquadramentos com closes acelerados). Talvez esteja nas várias cenas em que os zumbis são fotografados em contraluz caminhando pelas dunas. Ou, quem sabe, nas belas mulheres presentes no elenco. São pequenos detalhes que salvam Oasis of the zombies de ser uma nulidade completa e que, em alguns (raros) momentos, o revestem com uma aura de “filme de arte”.

*N.C: De acordo com os críticos Felipe M. Guerra e Gabriel Paixão, Oasis of the Zombies possui duas versões: uma francesa (L’abîme des morts vivants; a versão comentada neste texto) e outra espanhola. Para mais informações, leiam a detalhada (engraçadíssima) resenha que ambos publicaram aqui.




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A morte (The Dead Next Door) 
EUA, 1988 - Direção: J.R. Bookwalter
           


Muito foi comentado sobre A morte no Casacast #5. Os que ouviram o programa sabem que esta película é um dos guilt pleasures deste colunista que vos escreve. Isso porque a obra máxima de Bookwalter foi o segundo filme sobre zumbis que eu vi na vida (o primeiro foi o péssimo A volta dos mortos-vivos parte II, de Ken Wiederhorn)!

No longínquo ano de 1996, quando eu tinha 8 anos, a filmagem crua em Super-8 e o epílogo apocalíptico de A morte me impressionaram bastante. Todavia, foi eu rever o filme cinco anos depois para perceber o grande fiasco que ele era: atuações canastronas, efeitos pirotécnicos fajutos e um roteiro que parece xingar o espectador de burro a cada instante (ou alguém é capaz de engolir a cena em que um policial enfia sem querer a mão na boca de um morto-vivo e tem os dedos decepados?).

A pobreza de recursos não fica nítida somente na maquiagem simplista dos mortos e nas cenas de violência. O amadorismo na caracterização do núcleo de humanos é o que mais salta aos olhos ao longo da projeção. Prova disso é o núcleo de personagens cientistas do filme, que parece tudo menos uma equipe de profissionais empenhados em descobrir uma cura para o vírus que está fazendo os mortos andarem e comerem os vivos. Pior é o “Esquadrão Anti-zumbis” (Zombie Squad, no original): será que a população pode se sentir segura quando a única força-tarefa contra os zumbis é um bando de policiais incompetentes que prendem zumbis na traseira de uma Belina?


Por que diabos vale a pena ver esta tralha? 

Para começar a falar dos pontos positivos deste filme, parafraseio a mensagem estampada na capinha do VHS nacional de Um jantar sangrento: “Trash Movie. É impossível não rir neste filme”. A variedade enorme de cenas imbecis e diálogos sofríveis fazem de A morte um passatempo melhor que muitas comédias. Exagero? Então quero ver você segurar as gargalhadas na cena em que o Dr. Moulsson (interpretado pelo intragável Bogdan Pecic – que raio de nome é esse?) tem o corpo estraçalhado por uma horda de mortos-vivos. Após ter a garganta rasgada por deles, tudo o que o doutor consegue dizer é: “devolvam o meu boné”! É ver para crer!

Esse é só um exemplo do potencial cômico de A morte. No entanto, o real valor da obra está no fato de ela ter sido realizada por um garoto de 18 anos (!) e um grupo de amigos que conseguiram o patrocínio de… Sam Raimi - o homem por trás do clássico The Evil Dead! Na época, Raimi (o mesmo que dirigiu recentemente a trilogia milionária do Homem-Aranha e o fraco Arraste-me para o inferno) encorajou Bookwalter a filmar seu próprio filme de zumbis e liberou cerca de 125 mil dólares para o rapaz tirar as ideias do papel. Nos créditos, Raimi aparece como “The Master Cylinder”.

O filme também merece ser visto por fazer várias citações bem-humoradas a obras clássicas do subgênero zumbi, como A noite dos mortos-vivos, Despertar dos mortos e o próprio The Evil Dead. Há uma grande quantidade de easter eggs para os fãs de horror, bem como cenas inteiras que homenageiam estes filmes.



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Na semana que vem: cadáveres caminhando ao som de Cindy Lauper, mais mortos-vivos nazistas, uma pisada na bola do mestre Lucio Fulci e um filme de zumbis italiano filmado no Rio de Janeiro! Até lá!

Prof. Pardal

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