Ah, os Estados Unidos da América! O país mais rico, influente e poderoso do planeta! Terra de oportunidades, símbolo da democracia, nação “concebida na Liberdade e consagrada ao princípio de que todos os homens nascem iguais” (palavras do Seu Lincoln). O lugar onde você pode viver de Big Mac e bacon sem a sua mãe chiar; dirigir sedans espaçosos - e, com isso, mostrar um grande dedo do meio para essa “frescura de aquecimento global”; ser cool simplesmente porque solta fuck e motherfucka no final de cada frase; e, principalmente, se dar bem na vida e pegar louras peitudas mesmo sendo um acéfalo truculento.
Além disso, o cidadão americano pode folgar com o resto do mundo à vontade! Afinal, não há o que temer quando se tem mísseis com valor equivalente ao PIB de países do Terceiro Mundo, governadores-andróides-fodões-do-futuro, presidentes cowboys e protetores como Capitão América, Rambo, Coronel Guile, Jack Bauer, Chuck Norris e os X-Men. Viu só que lugar legal para se viver? Deus abençoe a América!
No entanto, alguns cineastas e roteiristas não acham a utopia neoliberal estadunidense e o american way of life tão legais assim. E eu não estou falando das discussões presentes em películas como O Declínio do Império Americano ou Querida Wendy, obras que fazem os críticos “intelectuais” e moderninhos do tipo “olha como sou cult” terem orgasmos. Estou me referindo a filmes B mesmo, de horror e ficção científica, películas independentes ou de baixo orçamento supostamente incapazes de carregar conteúdo político, mas que têm muito a dizer sobre a terra do Tio Sam.
E já que falei de Big Mac na introdução dessa crônica, vou começar por A Coisa (The Stuff, 1985). Sim, você certamente viu essa pérola terrir (híbrido de terror e comédia) quando ela era exibida à exaustão na finada Sessão das Dez, do SBT. É aquele filme em que as pessoas têm seus órgãos internos devorados por uma espécie de iogurte alienígena, lembra? Não? É, acho que estou ficando velho…
Brincadeiras à parte, o argumento de A Coisa pode ser interpretado como uma crítica bem humorada à indústria alimentícia - sobretudo às redes de fast food - norte-americana. A história de uma substância viscosa que, após ser industrializada e vendida em larga escala, corrói o interior e domina a mente de quem a consome questiona o descaso das empresas de alimentos para com a saúde dos consumidores (Mcdonald’s? Alguém?). Prova disso é o segmento em que o protagonista Mo (interpretado com muito sarcasmo por Michael Moriarty), um espião industrial, investiga a fórmula da “coisa” e acaba descobrindo que os testes de qualidade desta não foram realizados com precisão, uma vez que as distribuidoras queriam lançar o produto rapidamente no mercado.
A Coisa não se limita a criticar a ganância empresarial. Sobra bordoada para os consumidores também: ao ingerir a “sobremesa”, estes sofrem uma espécie de lavagem cerebral e passam a desejar a substância mais e mais. Uma brilhante sátira aos hábitos alimentares do cidadão norte-americano em um filme cujos efeitos especiais são feitos com sorvete barato! Morra de inveja, Morgan Spurlock *!
O soco no estômago - com o perdão do trocadilho - da América é maior em Despertar dos Mortos (Dawn of the Dead, 1978), do “pai dos zumbis” George Romero. Nesta obra bastante exaltada por estudiosos do cinema de horror, porém considerada pirotécnica demais por intelectuais malas, a crítica à sociedade americana é ainda mais visceral. As inúmeras cenas em que mortos vivos desprovidos de consciência vagam sem rumo pelas dependências de um shopping center explicitam a denúncia do roteiro: o consumismo exacerbado e o vazio decorrente do american way of life.
Na opinião de alguns estudiosos (tão ou mais malucos que eu), Despertar dos Mortos não apenas criticaria ferozmente o capitalismo ianque, como também representaria a destruição deste sistema socioeconômico por uma revolução socialista! É o caso de Stephen Harper, pesquisador da University de Glasgow, que, no artigo Zombies, Malls, and the Consumerism Debate, afirma que os mortos-vivos podem ser interpretados como uma representação do lumpemproletariado - grupo citado por Karl Marx em seu Manifesto Comunista que corresponderia à porção marginalizada da sociedade que poderia ser usada para realizar a revolução.
Tudo isso soa forçado? Estou achando pêlo em ovo? Pois então assistam ao epílogo do filme, uma verdadeira paulada no individualismo selvagem derivado da sociedade de consumo. Ao invés de se unirem contra uma ameaça maior (os zumbis), os vivos acabam se digladiando para ver quem domina um shopping center – e as mercadorias deste. Enquanto o pau rola solto entre os humanos, sobram pescoços, braços e tripas para os cadáveres se deliciarem!
A despeito de o filme de Romero ser o meu favorito, reconheço que o argumento de Eles Vivem (They Live, 1988) pega ainda mais pesado com a cultura estadunidense. Tanto que optei por encerrar esse artigo falando sobre esta que, na minha opinião, é a melhor obra de John Carpenter. E olha que o cara tem Halloween e O Enigma de Outro Mundo no currículo!
Na trama, um sem teto de nome John Nada (o wrestler Roddy Piper, com um baita mullet) chega a Los Angeles em busca de emprego. Apesar de viver na pobreza, Nada vê a America como uma terra de oportunidades. “Obedeço as regras, um dia a chance aparecerá”, diz ele com convicção em antológico diálogo. Contudo, o sonho americano do protagonista é destruído quando este descobre em uma igreja um par de óculos escuros capaz de enxergar “a vida como ela é”.
E a realidade não é das mais animadoras: ocultos por um sinal de TV que provoca espécie de hipnose coletiva, alienígenas com feições cadavéricas ocupam os principais cargos políticos e dominam as massas com mensagens subliminares do tipo “obedeça”, “não questione as autoridades” e “consuma”.
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| Parafraseando Nelson Rodrigues, “a vida como ela é”: mensagens subliminares controlam as massas em Eles Vivem. |
Eles Vivem possibilita várias leituras. Uma vez que as mensagens subliminares estão presentes em outdoors, revistas, banners e toda a sorte de veículos publicitários e jornalísticos, é cabível a ideia de que a película questiona o discurso coercitivo e, algumas vezes, autoritário destes. Contudo, a crítica mais ácida que pode ser extraída do filme diz respeito ao fato de a sociedade americana (só ela?) permitir pouca ou nenhuma mobilidade social e financeira. De acordo com a obra de Carpenter, a liberdade econômica pregada pela América nada seria senão uma farsa para entorpecer as massas com um sonho de ascensão e, dessa forma, permitir que a elite mantenha-se no poder.
Brrr! Não é mais assustador do que qualquer outro filme de horror que você já viu?
*Nota do autor: Morgan Spurlock é o diretor e o protagonista de Super Size Me (2004), documentário que expõe as consequências dos (péssimos) hábitos alimentares dos estadunidenses.
A Coisa (The Stuff) EUA, 1985 - Direção: Larry Cohen - Roteiro: Larry Cohen - Com: Michael Moriarty, Andrea Marcovicci, Garret Morris e Paul Sorvino.
Despertar dos Mortos (Dawn of the Dead) EUA/Itália, 1978 - Direção: George Romero - Roteiro: George Romero - Com: David Emge, Ken Foree, Scott H. Heiniger e Gaylen Ross.
Eles Vivem (They Live) EUA, 1988 - Direção: John Carpenter - Roteiro: John Carpenter (baseado no conto “Eight O’ Clock in the Morning”, de Ray Nelson) - Com: Roddy Piper, Keith David, Meg Foster e Peter Jason.
Prof. Pardal



